Tag Archives: crônicas

Lançamento do livro “Ressaca do Adeus e Outras Crônicas”, de Gabriel Cassar

Chegou o grande momento! Nesta quinta-feira, 27/04, lançarei meu primeiro livro. “Ressaca do Adeus e Outras Crônicas”, publicado pela Chiado Editora. A noite de autógrafos será realizada na Livraria da Travessa, em Ipanema, com início marcado para as 19h. Aguardo todos lá. Beijos!

Advertisements

Inércia

Lembro de ter acordado. Foi bem repentino, mas costuma acontecer com certa frequência, ainda mais quando não estou dormindo em casa. Dei uma rápida olhada no quarto: armário de madeira embutido, prateleiras com livros, criado mudo e ventilador de teto. Até entender onde estava, fiquei agoniado.

Aos poucos, reconheci a moça que dormia ao meu lado. O nome já me fugira e, como o céu ainda apresentava tons escuros, ficou difícil me lembrar dos detalhes de seu rosto. O ar-condicionado estava muito forte e dividíamos as cobertas. O sono dela era muito pesado, o que me ajudou a roubar a maior parte do edredom, configurando aquele mau caratismo clássico dos parceiros de uma só noite.

Inanição. Mescla de preguiça com cansaço pós bebedeira e sexo da noite anterior. A depressão pesa algumas toneladas também, é verdade. Comecei a fingir que havia perdido os movimentos do meu corpo, só sendo capaz de olhar para cima e de ouvir os roncos da menina. E os devaneios me levaram.

Gregor de Kafka ou Meursault de Camus? Mais para Camus; era possível ver que ainda tinha membros humanos, o que inviabilizava minha pretensa aventura como inseto grotesco.

Olhava a menina e pensava em maneiras de matá-la, sem sentir remorso. Depois, fixava minha atenção na janela e pensava em me atirar do prédio. O que estou dizendo, afinal? Jamais seria capaz de nada disso.

De repente, o barulho. Levei um pequeno susto e esperei para ver se se repetiria. E pronto, lá estava ele de novo. Era a campainha. Meu cérebro sorriu.

O sono pesado da moça jamais seria incomodado por tão tenro som. A empregada era quem apertava inutilmente o botão, na esperança de que a dona da casa abrisse a porta. Eu nada fazia.

Minha mente trabalhava, advogando contra e a favor de minha ação ou omissão. Lembrava de Meursault e seu uso quase despretensioso da arma de fogo, seu julgamento e sua morte, tudo feito de maneira insossa, niilista, existencialista. A campainha era o grito da funcionária que pegou ônibus, trem e metrô lotados e tudo que desejava era entrar na casa da madame branca para servi-la por mais um dia, em troca de um salário miserável e sem direitos trabalhistas. A cada badalada, angústia e maldade se intensificavam em meu coração, travando uma verdadeira batalha pelo meu caráter.

Olhava o teto, ouvia os roncos da moça, a campainha tocando incessantemente, o quarto já todo iluminado pela claridade, o celular disparando alarme. Mantive-me paralisado. Por fim, um silêncio de alguns minutos. Teria desistido? Haveria se libertado das correntes proletárias e estaria agora entoando cânticos de guerra nas ruas, promovendo uma revolução das domésticas?

O interfone tocou e pôs fim às minhas ilusões. Embebido de arrependimento, levantei-me, puxei minhas roupas e cutuquei a mulher com força, para que acordasse.

– Tem alguém na porta.

Meio zumbi, a dona da casa se levantou e eu só pude ouvir seus inúmeros pedidos de desculpas para a empregada, que afirmava não haver problema algum.

Nesse ínterim, aproveitei que a porta de trás da casa estava aberta e fui embora.capaaovivoressaca4.JPG

Alguém

Eu quero alguém. Podem ser “alguéns” também, não necessariamente precisa ser uma pessoa só. Tenho até uma ex-namorada que chegou a amar três pessoas concomitantemente. Eu nunca consegui, mas deixo todas as portas abertas. Gosto de um ventinho natural.

Voltando: eu quero alguém. Queria uma pessoa que topasse beber uma cerveja comigo agora. Sim, agora. São 05h20 da manhã, eu sei. Nunca disse que queria alguém normal. A gente iria para o bar e ia implorar para o garçom não fechar. E íamos beber uma cervejinha. A mais barata, mas sem ser Itaipava. Itaipava dá piriri. Nos dois. Eu iria olhar para você, você iria olhar para mim e falaríamos juntos: “gurjão de frango!”. E a gente ia rir a beça depois disso e se abraçar e se beijar. Beijar não, só um selinho carinhoso. E voltaríamos a conversar.

Eu ia abrir o berreiro, chorar copiosamente, dizer que sou desgraçado da cabeça. Você também é, mas, na hora, você seria a pessoa forte emocionalmente da nossa mesa. Enxugaria minhas lágrimas com as suas próprias bochechas e me ofereceria ficar ainda mais doido para esquecermos toda a dor do mundo juntos. Eu pediria um alcatrão e você um fogo paulista. A gente vira um pouco e depois troca. Mais uma vez, falaríamos juntos: “como você consegue beber esta merda?”. Gargalhadas e caras de vômito depois, começaríamos a criar soluções para o mundo.

Energia sustentável, comida sem agrotóxico, um modelo pós-capitalista, juntando tudo de bom que os economistas e sociólogos pensaram ao longo da vida, conseguindo conciliar Marx, Smith, Ricardo, Schumpeter e Hayek. Sim, nós dois resolveríamos o mundo, Amor! Não é o máximo?

Eu ia pedir, só de sacanagem, para você rebater meus argumentos filosóficos. Ia te sugerir uma visão totalmente diferente da alegoria da caverna de Platão e você ia ficar puta da vida. Já até vejo seu rostinho ficando vermelho. E a gente discutiria sobre Hieráclito e Parmênides, sobre São Tomás de Aquino, sobre Nietzsche e Schopenhauer, sobre a existência ou não de Deus e o porquê de não acreditar em algo ser tão inverossímil quanto acreditar. No final, mais cerveja para molhar nossa boca seca.

E você encostaria a cabeça no meu ombro e pediria um cafuné no couro cabeludo, mas sem dizer nada. Eu faria um movimento com os dedos bem devagar do jeito que você gosta e ficaria feliz por poder sentir seu perfume tão perto de mim. Talvez eu chegasse a fungar forte demais para sentir (esqueci o neosoro) e você ia me perguntar se eu tava com algum problema. Tô não.

E aí era chegada a hora de você abrir seu coração e me contar de todos os seus sonhos, arrependimentos, passos dados em falso ou em terra firme, sempre com aquele brilho nos olhos, não por serem claros, mas por serem vivos por si só. E eu ia ouvir com muita atenção e tentaria utilizar minha bagagem de vida para te ajudar, nem que fosse só um pouquinho. E ficaria admirando a sua inteligência, perspicácia e principalmente sua obstinação, essa gana de querer tudo que consegue ser mais eficiente do que qualquer ISRS.

E eu te beijaria forte, de forma ardente, completamente apaixonado por você. E a gente, depois do beijo, continuaria colado, com os lábios encostados, sentindo a troca de energia que só um amor de verdade pode proporcionar. É, talvez meu coração já não comporte mais ninguém.convite

Número 2

conviteTrabalhar no busão carioca não é nada fácil. Experimenta, então, colocar aquela calça preta maldita num dia ensolarado, assim como estava hoje. As coisas não fluem! Ou será que fluem?

Luís acordou com um estranho incômodo. Na barriga. “Deve ser nada”, pensou. E se dirigiu para a garagem, onde ia pegar o seu amado e querido 432.

– Fala, Jorge.

– E aí, grande. Vamos embora? – disse o trocador.

– Deixa eu só usar o banheiro.

A verdade veio à tona em forma de piriri, diarreia ou, para os mais chegados, de caganeira. Porcelana suja, testa suando e um problemão pela frente. E agora, José? Quer dizer, Luís. Do jeito que a família Barata é, era capaz de juntar as funções de trocador, motorista e ainda anexar um vaso sanitário no lugar do banco da frente. Jesus amado.

Em Ipanema, Luís foi gentil e abriu a porta para mim fora do BRS correto. Corredor de ônibus vazio e velocidade alta. “Hoje, eu chego rápido na faculdade!”, comemorei, em vão.

No meio da Nossa Senhora, enquanto ouvia Belchior, reparei que o veículo já encontrava parado há uns 5 minutos. Jorge olhava tenso para trás e para frente, coçando seu bigode, muito bem cuidado por sinal. Uma fila de pessoas querendo pagar se formava na parte frontal no ônibus, mas o trocador não permitia que passassem pela roleta.

O clima, que já estava quente, tornava-se um inferno. Uma senhora atrás de mim (um ps: sempre tem essa figura estereotipada da coroa que rompe o silêncio e questiona algo de estranho que por ventura esteja ocorrendo na viagem) pergunta, em voz alta, o que diabos está acontecendo. “Ele foi ao banheiro”, responde Jorge.

As pessoas que ainda não pagaram vão minguando, pouco a pouco, percebendo que o número 2 do piloto era nível hard. Depois de quase 15 minutos, o trocador vê um outro 432 passando e faz sinal. O colega diminui a velocidade, mas para consideravelmente na frente. Jorge abre as portas de trás e grita:

– Peguem esse lá!

As pessoas começam a sair. Muitos idosos estavam presentes, então o processo é mais lento do que o esperado. Jorge se inquieta e, meio sem noção, fala:

– Vão logo!

O brado do trocador foi suficiente para irritar todos os passageiros, que soltaram vários “Eu, hein”, “Tá, maluco” e “Vai logo é o caralho” (meu predileto). Irritações à parte, tudo dá certo. Os remanescentes da parte anterior à roleta tentaram dar uma de espertos e entrar por trás, mas, o combatente Jorge não permitiu que esse prejuízo fosse depositado nas costas dos empresários de ônibus.

Enquanto isso, no banheiro, Luís lutava contra a sua dor de barriga. O suor escorria pelas pernas e a porteira estava aberta, sem previsão de final. Sabendo que a situação já era insustentável e vexatória, relaxou, acendeu um cigarro dentro da cabine e fez o que tinha de fazer. Limpou-se, lavou as mãos, agradeceu ao dono da tabacaria e subiu no ônibus.

Encontrou Jorge com a cara mais fechada do que o tempo que viria depois.

– Cadê os passageiros que estavam aqui? – perguntou Luís

– Cagaram para você.

Matemático

TirinhaCalvinMatemáticaNão me agrada a matemática. Admirava o número 5, mas preferências subjetivas não têm espaço neste conjunto. Dizia que era meu algarismo predileto, representante da melhor idade que se pode ter enquanto vivo, do número de dedos das mãos, do andar do meu prédio. O ícone máximo dos ímpares, patrono daqueles que se quedarão eternamente sozinhos, haja o que houver.

Nunca me agradou a matemática. Amava somar, detestava subtrair; multiplicava com empolgação, dividia com apreensão. Deixe-me fazer isso! Não pode, menino. Onde já se viu, só quer juntar as coisas, nunca separá-las. Qual o mal disso, oras? Dizem que eu era apto ao exagero, tinha afeição pelas potências e curvas exponenciais. Que transborde! Saia do gráfico, transcorra a função, escorregue pela matriz. Estudam tanto, mas não acham a fórmula que me deixaria feliz…

Não cultuarei a matemática. Sou humano, não número. Sou todo, não fracionado. Sou mais, nunca menos. Contenho e estou contido, pertenço e me pertencem, sou parte e sou todo. E minha raiz, por mais que calculem, estará para sempre embutida no rol de mistérios do nosso universo. Não há cálculo que fará possível me entender.

Na somatória dos anos, derivam-se frações. Fracionados estão, a bem da verdade, nossos corações, implorando soluções e colecionando, juntando, amontoando, somando, multiplicando, apenas, apesar de todas as operações, desilusões. Resposta não encontrada.