Número 2

conviteTrabalhar no busão carioca não é nada fácil. Experimenta, então, colocar aquela calça preta maldita num dia ensolarado, assim como estava hoje. As coisas não fluem! Ou será que fluem?

Luís acordou com um estranho incômodo. Na barriga. “Deve ser nada”, pensou. E se dirigiu para a garagem, onde ia pegar o seu amado e querido 432.

– Fala, Jorge.

– E aí, grande. Vamos embora? – disse o trocador.

– Deixa eu só usar o banheiro.

A verdade veio à tona em forma de piriri, diarreia ou, para os mais chegados, de caganeira. Porcelana suja, testa suando e um problemão pela frente. E agora, José? Quer dizer, Luís. Do jeito que a família Barata é, era capaz de juntar as funções de trocador, motorista e ainda anexar um vaso sanitário no lugar do banco da frente. Jesus amado.

Em Ipanema, Luís foi gentil e abriu a porta para mim fora do BRS correto. Corredor de ônibus vazio e velocidade alta. “Hoje, eu chego rápido na faculdade!”, comemorei, em vão.

No meio da Nossa Senhora, enquanto ouvia Belchior, reparei que o veículo já encontrava parado há uns 5 minutos. Jorge olhava tenso para trás e para frente, coçando seu bigode, muito bem cuidado por sinal. Uma fila de pessoas querendo pagar se formava na parte frontal no ônibus, mas o trocador não permitia que passassem pela roleta.

O clima, que já estava quente, tornava-se um inferno. Uma senhora atrás de mim (um ps: sempre tem essa figura estereotipada da coroa que rompe o silêncio e questiona algo de estranho que por ventura esteja ocorrendo na viagem) pergunta, em voz alta, o que diabos está acontecendo. “Ele foi ao banheiro”, responde Jorge.

As pessoas que ainda não pagaram vão minguando, pouco a pouco, percebendo que o número 2 do piloto era nível hard. Depois de quase 15 minutos, o trocador vê um outro 432 passando e faz sinal. O colega diminui a velocidade, mas para consideravelmente na frente. Jorge abre as portas de trás e grita:

– Peguem esse lá!

As pessoas começam a sair. Muitos idosos estavam presentes, então o processo é mais lento do que o esperado. Jorge se inquieta e, meio sem noção, fala:

– Vão logo!

O brado do trocador foi suficiente para irritar todos os passageiros, que soltaram vários “Eu, hein”, “Tá, maluco” e “Vai logo é o caralho” (meu predileto). Irritações à parte, tudo dá certo. Os remanescentes da parte anterior à roleta tentaram dar uma de espertos e entrar por trás, mas, o combatente Jorge não permitiu que esse prejuízo fosse depositado nas costas dos empresários de ônibus.

Enquanto isso, no banheiro, Luís lutava contra a sua dor de barriga. O suor escorria pelas pernas e a porteira estava aberta, sem previsão de final. Sabendo que a situação já era insustentável e vexatória, relaxou, acendeu um cigarro dentro da cabine e fez o que tinha de fazer. Limpou-se, lavou as mãos, agradeceu ao dono da tabacaria e subiu no ônibus.

Encontrou Jorge com a cara mais fechada do que o tempo que viria depois.

– Cadê os passageiros que estavam aqui? – perguntou Luís

– Cagaram para você.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s